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Exposição Fotográfica | «Comunidade Avieira»

Novembro 2-7:30 - Novembro 30-14:00

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O Mercado de Alvalade tem patente até ao final de novembro a exposição fotográfica “Comunidade Avieira”, que retrata as tradições e o dia-a-dia daqueles que fizeram parte de um dos movimento migratórios internos mais extraordinários do nosso país.

O Mercado de Alvalade encontra-se aberto ao público de segunda-feira a sábado, entre as 7H30 e as 14H00. Visite a exposição!


Sinopse

As migrações Avieiras dos finais do século XIX, início do século XX – as mais extraordinárias migrações internas ocorridas em Portugal – levaram a que populações marítimas (naturais da região litoral de Portugal, mais propriamente da Praia de Vieira de Leiria, o que lhes dá o nome de Avieiros, gentílico extraído da sua terra de origem), ao serem confrontadas com a adversidade do mar, principalmente nos meses de inverno, a escassez do pescado e a falta de sustento, rumassem a sul, procurando nas águas doces do rio Tejo e Sado melhores condições de vida. Instalaram-se nas suas margens, onde apenas os abrigava a maracha e o toldo do exíguo barco.

A casa do Avieiro era o barco, “bateira”, embarcação típica com a proa e a ré em bico, apontadas ao céu, cujas dimensões variam entre cinco e sete metros. As cores com que são pintadas são diversas, pois algumas delas são cores de família, respeitadas por todos os pescadores entre si, sendo normalmente cores vivas, tendo como base exterior o negro do pez com que são revestidas. A vivência no barco obrigava a que o seu interior fosse dividido em três partes: o quarto na proa, a emparadeira no centro do barco que serve de cozinha e a oficina de pesca, situada na ré, onde guardavam as redes e o pescado. Quando se agravava o estado do tempo, era colocado um oleado na proa – “tolde” –, que servia de abrigo à família. No barco eram feitos os partos, criados os filhos, tratados os doentes. Dormiam e comiam no único lar que lhes era dado. Fabricavam os seus próprios barcos e as artes (os materiais de pesca). O barco não só era o instrumento de trabalho, como o abrigo que os acolhia quando a vida já não lhes permitia trabalhar, acabando muitas vezes por servir de tumba.

No princípio dividiam a atividade piscatória em meses de verão e de inverno, indo ao mar de Vieira apenas no verão, onde exerciam a arte xávega da sardinha, e no Tejo e Sado a arte varina do sável. Simultaneamente, tentavam trabalho certo nos campos da lezíria imensa, na busca de sustento com a apanha de tomate e melão. Com o decorrer do tempo, as comunidades Avieiras estabeleceram-se junto às vilas ribeirinhas onde acabaram por se fixar, desenvolvendo atividade comercial fluvial e terrestre.

Presos às suas raízes, viviam um mundo próprio de regras e costumes, fruto da rejeição a que se viram inicialmente remetidos pela população das regiões onde se instalavam e onde cada Avieiro tinha – e ainda conserva – a alcunha, nome pelo qual mais prontamente responde. As suas tradições e os conhecimentos relativos à pesca tinham de ser preservados e protegidos, pelo que no intuito de o conseguirem, era hábito casarem entre si para que estes valores se mantivessem entre as famílias Avieiras. Estas práticas, bem como o seu nomadismo, levaram Alves Redol, no seu livro “Avieiros”, a intitulá-los de “ciganos do rio”, pela semelhança com a etnia cigana. Esta denominação em nada menospreza o Avieiro, apenas lhe atribui peculiaridade.

A mulher Avieira sustenta um papel muito importante, não só na sua condição de esposa e mãe, como também a “camarada”. Ela comanda o barco enquanto o marido lança as redes e ajuda na recolha do pescado. Finda a faina, descalça e com o cesto do peixe à cabeça, ela ia de porta em porta vendendo o pescado para garantir o sustento da família. Remando de noite e trabalhando de dia no campo durante o verão, a ela competia governar o dinheiro ganho. A mulher Avieira distinguia-se pelo uso do seu traje. A saia em xadrez de várias cores, onde o favo lhes marcava a anca, o rodado que apresentavam por baixo do avental de seda bordada e para que a roda fosse bem farta, mais três saias brancas bordadas e com folhos, apareciam por baixo da saia de xadrez. A saia de trabalho era bastante franzida e aos quadrados. A saia de domingo era pregueada. Nas pernas, meias brancas trabalhadas, também chamadas de “canos” e chinelas nos pés, ou socos com sola de madeira. Lenço em lã escura e chapéu preto colocado por cima.

Por sua vez, o homem Avieiro traja camisa de xadrez, calça também de xadrez atadas no tornozelo com uma fita, camisola de lã, gabão, cinta preta, tamancos altos com sola de madeira e barrete preto. À medida que se foram fixando, os Avieiros sentiram a necessidade de um lar para eles e para a família, com condições mais cómodas e diferentes das oferecidas pelo pequeno barco onde viviam. O objetivo a que se propunham era construir junto à margem do rio uma casa em madeira – palafita – assente em estacas de forma que na altura das cheias as casas ficassem acima do limite das águas. O seu interior tinha um quarto para o casal, a cozinha e um espaço que seria aproveitado como sala ou até para quarto dos filhos. Uma porta e janelas. O telhado, construído numa base triangular, dava a possibilidade de construir, por cima do quarto do casal, outro espaço que quanto mais não fosse, daria para guardar as artes. Embora exígua, a palhota, também assim chamada, seria sempre bem melhor do que o barco e o seu desconforto a céu aberto.

As palafitas tornaram-se realidade e à borda de água formam-se as Aldeias Avieiras. A nova infraestrutura vinha dar-lhes a possibilidade de poderem enviar os filhos à escola. As crianças que viviam longe do estabelecimento escolar tinham agora a possibilidade de um porto-seguro, onde no regresso das aulas, podiam esperar seus pais. Os Avieiros da Póvoa de Santa Iria já não moram nas palafitas. Um projeto camarário de requalificação da frente ribeirinha, cofinanciado por fundos europeus do PORLisboa, demoliu as construções palafíticas para criar, junto ao rio, um passeio ribeirinho e área de lazer. À borda-d’água ficaram apenas arrecadações para guardarem as artes de pesca. Junto ao cais, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira colocou uma réplica da Casa Avieira, bem como o Núcleo Museológico “A Póvoa e o Rio”, criado como espaço de representação da história, cultura e património e também de reforço de memórias e identidades que por várias gerações se foram estabelecendo entre os habitantes locais com o rio Tejo. O mesmo espaço dispõe ainda de uma Cafetaria, que pela sua localização, convida a população a passar momentos agradáveis junto ao rio. Todas estas novas construções são em madeira. A Comunidade Avieira foi instalada num bairro construído pela Câmara Municipal, a cerca de 500 metros da margem.

Alguns Avieiros sabem ler e escrever, o que lhes permitiu a criação do Grupo Recreativo dos Pescadores da Póvoa de Santa Iria no ano de 1989. Reuniam numas instalações junto ao cais para discussão dos problemas comuns à Comunidade, e foi a partir desta base que se constituíram numa Associação, a ACAPSI, (Associação Cultural dos Avieiros da Póvoa de Santa Iria), devidamente formalizada no ano de 2012 e que conta nos dias de hoje com mais de 300 sócios. A Sede, instalada no anterior edifício, vem sofrendo significativos melhoramentos.
São várias as atividades culturais por eles dinamizadas, como as atuações do Grupo de Marchas Danças e Cantares Mulheres Avieiras, os almoços gastronómicos, o fado avieiro, o magusto avieiro, o dia da pesca Avieira embarcada no rio tejo, a passagem de ano mantendo a tradição Avieira, sendo os momentos mais altos o Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo e a Bênção dos Barcos com procissão no rio Tejo, inserida nas festas da cidade. Destaca-se também a colaboração com Entidades que os visitam e que solicitam o seu apoio nas mais variadas vertentes. Muitos deles têm mais do que uma atividade laboral e alguns tornaram-se Avieiros por casamento.

Um grupo de mulheres Avieiras canta e dança marchas típicas, exibindo-se nos eventos não só por eles realizados, como noutros onde sejam solicitadas. As festas da cidade da Póvoa de Santa Iria decorrem habitualmente no primeiro fim-de-semana do mês de setembro. A bênção dos barcos Avieiros, cerimónia integrada nas festas da cidade, chama ao rio a Padroeira, Nossa Senhora da Piedade, onde é aguardada pelas embarcações embandeiradas. Mantendo hoje muitos dos seus hábitos e costumes, os Avieiros da Póvoa de Santa Iria vivem e convivem, sendo que se tornou um dos pontos mais altos das atividades anuais, além da Bênção dos Barcos, a participação no Cruzeiro Religioso dos Avieiros e do Tejo.

Todas as comunidades Avieiras têm a sua fé e o seu Santo Padroeiro. Em cada barco havia a Imagem de Nossa Senhora de Fátima ou outra, mas os Avieiros sempre demonstraram vontade em ter uma “Imagem” que fosse apenas dos Avieiros. Investigou-se nesse sentido, tendo sido escolhida uma Imagem saída da “Capitellum”, oficina de arte sacra sediada em Braga, a que foi dado o nome de Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo. Esta Imagem, consagrada em Missa Solene na Igreja de Jesus Cristo da Santa Casa da Misericórdia de Santarém, em cerimónia presidida por Sua Excelência Reverendíssima o Bispo de Santarém, D. Manuel Pelino Domingues, em 04 de maio de 2013, é uma Imagem peregrina e pode ser solicitada pelas Comunidades Avieiras sempre que o desejem, permanecendo, porém, Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo na Igreja de S. Nicolau em Santarém.

Com o intuito de divulgar a Cultura Avieira, e no âmbito da Candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional e da UNESCO. foi criado o Cruzeiro Religioso primeiramente designado “dos Avieiros e do Tejo”, atualmente “Cultural e do Tejo”. Este Cruzeiro desceu pela primeira vez o rio Tejo, desde Constância até à Trafaria, em 24 de Maio do mesmo ano, numa procissão fluvial que integrou as embarcações típicas engalanadas, as bateiras, fazendo o trajeto em oito dias consecutivos. O andor de Nossa Senhora dos Avieiros, adornado de flores colocadas pelas mãos sábias das mulheres Avieiras, segue na bateira guia que visita todas as Aldeias Avieiras e comunidades situadas nas margens do rio. Em todas se realizam cerimónias religiosas em louvor a Nossa Senhora. Celebra-se Missa, reza-se o Terço, faz-se vigília com a leitura de várias orações e organizam-se momentos de convívio. Participa a comunidade Avieira, peregrinos e população. São momentos inesquecíveis os vividos nestas manifestações de fé e convívio… imperdíveis.

Detalhes

Início:
Novembro 2-7:30
Fim:
Novembro 30-14:00