Princesa Santa Joana

Contam as vozes de altura que “D. Joana era uma Princesa dotada da singular formosura, um rosto altivo, com cabelos castanho dourados, fortemente arruivados, que lhe desciam em abundantes ondas sobre o busto", com "olhos verdes eram doces e graciosos, tez rosada" e "uma elegância aristocrática nas mãos, no pescoço e na boca os seus cabelos emolduravam-lhe o rosto e o busto gentil e mui aposto de grande senhora.”

Eventualmente, também por esta beleza, foi muito pretendida de príncipes; Luís XI de França mandou a Lisboa seus embaixadores a pedi-la em casamento para o seu filho delfim, futuro Carlos III. D. João II, seu irmão, propôs-lhe por duas vezes casamentos a primeira com o Duque de Viseu e Beja D. Diogo.

A segunda foi com Ricardo III de Inglaterra. Curiosa, reza a história, a reacção de D. Joana, que como sempre se mostrou inflexível e quando o irmão insistiu para que aceitasse a proposta, ter-lhe-á dito calmamente: “ Senhor, sede certo que esse Rei por que tanto trabalhais por me fazer casar não é vivo. E é já do outro mundo e não deste.

É facto que passados dias chegou a notícia da morte de Ricardo III na batalha de Bosworth (1485).

A última proposta veio do Imperador da Alemanha, Frederico II que a pretendeu para esposa do seu filho, o arquiduque Maximiliano I.

A pretexto de que prometera ao Senhor, em acção de graças pela vitória de seu pai e Rei, sobre os infiéis de Arzila e Tânger, alcançou de D. Afonso V licença para passar algum tempo no convento de Odivelas com a sua tia D. Filipa. No entanto, teve grandes dificuldades em conseguir passar para o pequeno convento dominicano de Jesus, por não ser considerado à altura de tão nobre dama. Mas Afonso V acabou por consentir a entrada em clausura, no humilde Mosteiro de Aveiro.

Desde 4 de Agosto de 1471, passou a viver como hóspede no mosteiro até que, a 25 de Janeiro de 1475 tomou o hábito.

Por falta de saúde e acaso também, em atenção às precárias possibilidades de sucessão dinástica ou à necessidade de estabelecer alianças com príncipes estrangeiros, desistiu da profissão solene, permanecendo porém, na companhia das religiosas, com hábito monástico, mas sem obrigações de votos públicos, embora fizesse vida comunitária por simples devoção. O que não obstou a que mais tarde, a 25 de Novembro de 1481, emitisse voto particular de castidade perpétua.

A Princesa Joana saiu da clausura só em tempos de peste e por imposição régia, em 1479,1485 e 1489. Para seu sustento e de sua casa, que manteve em todo este tempo, outorgou-lhe D. Afonso V uma grossa tença.

Em 1481, D. João II confiou-lhe com três meses, a educação do Bastardo D. Jorge, que por privilégio singular em Portugal, realizou-se dentro da clausura do mosteiro, aproveitando os serviços do humanista italiano Cataldo Sículo, que iniciou a criança no latim e dedicou à tia várias composições clássicas exaltando-lhe as virtudes.

A Princesa estimava o sobrinho, e assim correspondia à afeição e confiança do Rei prova-o, acima de toda a suspeita prova-o o trecho do biógrafo Nicolau Dias no seguinte trecho: “ quando estava mal, mandou que lhe levassem o menino dom Jorge seu sobrinho que criava (…) e antes que morresse o andou chamar, sendo então de nove anos, e estando diante dela lhe fez uma longa prática (…). Trabalhay muito por serdes virtuoso e temerdes e amardes muito a Deus, e ele seja sempre convosco e vos dê doutrina e aviso”.

A Princesa Joana faleceu em Aveiro a 12 de Maio de 1490. Consta a Lenda que, depois de morta, readquiriu a cor saudável que a doença lhe arrebatara e que ao passar o enterro pelo jardim que ela tinha tratado, as flores murcharam.

Em 1749 iniciou-se o processo de canonização aprovado por Bento XIV a 17/03/1756. Mas por motivos desconhecidos impediram, porém, as solenidades da canonização formal. Por iniciativa da diocese de Aveiro, a Santa Sé, em 1693, pelo Papa Inocêncio XII foi beatificada e constituiu-a padroeira da diocese. Passou a ser conhecida por Princesa Santa Joana.

 
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