Alvalade é uma das mais recentes freguesias de Lisboa. No seu passado, apresentava um conjunto de quintas, solares e extensos campos verdes, onde a nobreza se deslocava para passar verões e passear numa atmosfera que promovia a reflexão e o romantismo. Como testemunho desses tempos, ficaram alguns dos mais belos exemplares arquitectónicos e históricos da cidade: a Quinta dos Lagares D´El Rei e o Chafariz de Entrecampos.
Alvalade conheceu o seu grande desenvolvimento, fundamentalmente, na segunda metade do Estado Novo, dando Origem a grandes projectos de arquitectura característicos dessa época, destacando-se o Bairro das Estacas e as Torres da Avenida dos Estados Unidos da América, entre outros.
QUATRO PERIODOS MARCANTES:
O primeiro que se estende até meados dos século XIX, é marcado pelo facto dos, então chamados, Campos de Alvalade funcionarem como uma zona a estratégica para a entrada na cidade e abastecimento dos habitantes.
O segundo, até meados do século XX, é caracterizado pela sua progressiva integração na cidade funcionando, agora, como um espaço de reserva e expansão da malha urbana. A reduzida ocupação de construções e proximidade do núcleo histórico da cidade, permite a sua utilização intensiva como um espaço de recreio e de desporto.
O terceiro período ocorre nos anos quarenta e cinquenta do século XX, quando se produz uma rápida urbanização que altera por completo a fisionomia da zona. Alvalade é, então, sinónimo de classe média e de elevados padrões de qualidade de vida no contexto lisboeta.
O quarto e último período, o vivido actualmente, são marcados por uma situação de encruzilhada: ou se prossegue no caminho da degradação urbana, ou se empreende a requalificação desta zona.
“AL-BALADE” - A ORIGEM?
Denominação que teve origem na expressão de um dos nossos primeiros monarcas quando assistindo à demarcação de um extenso campo teria ordenado “ Alvalade”, que não teria outro sentido senão o de “valai ou murai o que fica fora dele” segundo Bluteau (1).
Para outros autores, como Pinhal Leal, Alvalade deriva do árabe Al-Balade, no sentido da expressão “ valai, cercai de vala”; que significa “lugar habitado e murado”. Segundo a apresentação do brasão da Freguesia, esta última consideração foi a que prevaleceu.
Situado numa vasta e fértil várzea, o Campo de Alvalade abrangia, pelo menos, os actuais Campo Grande, Campo pequeno e o Bairro de Alvalade. A distinção entre Alvalade – o grande – e Alvalade – o pequeno (depois Campo Grande e Campo Pequeno) data, pelo menos, de 1520 onde já então, naquele subúrbio de Lisboa havia um extenso terreiro público, que D. Sebastião escolheu para exercícios militares das forças que haviam de o acompanhar na jornada a África, em 1578, e que acabaria por resultar na desastrosa Batalha de Alcácer-Quibir.
Neste século (XVI) já existia em Alvalade, o Grande, uma igreja (que substituíra uma anterior ermida), chamada de igreja dos Santos Reis Magos, antecessora da actual e sucessivamente anexada à de Santa Justa e à do Lumiar, provavelmente em 1602. Ao tempo a sede da Freguesia era chamada de “Reys de Alvalade”, que ficava junto da estrada que seguia para o Lumiar.
Em 1712, a Freguesia já tinha alterado o nome chamando-se de “Reys do Campo Grande” tendo, aquando do terramoto de 1755, sofrido avultados estragos. Existe uma referência da “(…) calçada de Alvalade, estrada de Sacavém pelos Lagares d´El Rei”, fazendo parte da Freguesia de Nossa Senhora dos Anjos, segundo as descrições e plantas da 2ª metade do séc. XVIII (antes e depois do terramoto de 1755). (2)
As notícias dos Campos de Alvalade são muito dispersas, no entanto, a qualidade dos ares e das suas quintas é referida desde o séc. XVI. Os tratados de medicina davam uma enorme importância à qualidade do ar, não apenas porque este permitia preservar a saúde, mas também curar doenças. Esta terá sido uma das razões que estimularam o aparecimento de muitas quintas de veraneio ao longo dos séculos como por exemplo: Galveias, Galvão Mexia, Santa Rita da Ameixiais, Lagares D´El Rei, Coruchéus. Também a Ordem Terceira de S. Francisco construiu um hospital e uma igreja.
A Nobreza e o Povo desde muito cedo elegeram o campo como local predilecto para passar o Verão. Alvalade enchia-se de gentes que ali, à sombra das muitas árvores, se deleitavam na contemplação daquela soberba paisagem a perder de vista. Palco de feiras, mercados e touradas, foi zona de recreio e festa rija onde não faltava o fado, os petiscos e os espectáculos.
Em 18 de Julho de 1885, a Freguesia foi incorporada na cidade de Lisboa. Alvalade manteve por pouco tempo o seu carisma de séculos. A cidade já então cresceu para norte com uma velocidade incontrolável e rapidamente rasga os antigos caminhos de terra batida. Por todo o lado expropria-se, compra-se, vende-se e urbanizam-se quintas e palácios seculares.
Alvalade assume uma nova identidade e assiste à sua própria mutação. Zona Moderna e dinâmica, esta nova Freguesia da cidade pretende-se opção à velha Lisboa de Pombal, constituindo uma inovadora filosofia municipal que aqui encontrou terreno favorável à sua execução.
* Conteúdo baseado da Monografia - “Freguesia de Alvalade” de Figueiredo, Paulo , 2002., Edição : Junta de Freguesia de Alvalade - Lisboa
(1) Sucena, Eduardo, Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, 1994 e Monumentos e Edifícios notáveis do distrito de Lisboa, Vol. V ; Assembleia Distrital de Lisboa, Lisboa, 2000
(2) Santana, Francisco; Lisboa na 2ª metade do séc. XVIII |